produto orgânico
No ateliê-casa-teatro-espaço de festa do artista plástico Sérgio Altenkirch, o lixo do
Recife Antigo vira ouro e chama a atenção do mercado de arte

Por Phelipe Rodrigues
prodrigues.pe@dabr.com.br
Catadores do Recife Antigo, barqueiros do Marco Zero e vizinhos do fotógrafo, artista gráfico e escultor Sérgio Altenkirch sabem que ele adora lixo. É comum encontrar na sua calçada da Rua Vigário Tenório algumas “oferendas”: a boia holandesa que decora a parede na entrada do galpão de 400 metros quadrados. “Há sete anos, comecei a trabalhar com reaproveitamento de materiais. Desde madeira de demolição até objetos abandonados”, comenta Sergio. Na época, ele alugou o galpão para usá-lo como moradia e testava a vocação para o manuseio da madeira. “Sou autodidata em tudo o que já fiz na vida. Foi assim com o design gráfico e a fotografia”.

A experiência virou trabalho – bem valorizado no mercado de artes – e o acervo saiu de controle. “Hoje, mantenho outro espaço, perto da Praça do Arsenal da Marinha, com mais 400 metros quadrados, para guardar o material”, confessa. Por mais desconexo que pareça a um visitante, cada item amontoado tem significados. O encordoamento de um piano de cauda produzido em Chicago, Estados Unidos, de 1857, e o cocho de um engenho de açúcar viraram uma borboleta gigante. “A obra mais cara. R$ 100 mil”.
A mais divertida fica na entrada do teatro que ele improvisou, construindo arquibancadas com vista para a Marquês de Olinda. O título dela é Chupa-cabra, uma bicicleta ergométrica erótica que simula sexo oral nos usuários. “Há alguns carnavais, instalo a Chupa em frente à Casa da Moeda (o bar de Sergio, inteiro construído com elementos do seu universo), na Rua da Alfândega. No ano passado, uma turista estrangeira decidiu pedalar e o ‘passeio’ virou performance. Ela foi aplaudida de pé”, diverte-se Sérgio.
Um dos fundamentos de sua arte é a releitura e mistura de matérias-primas. Os oratórios empilhados no segundo andar, onde fica o ateliê propriamente dito, se transformam em luminária ou adega. As portas antigas são usadas por ele como revestimento para piso e teto. Janelas viram porta-retratos para as fotografias assinadas por Sergio. Madeira e resina convivem na boa.
Quando existe uma folga na agenda, ele envereda por projetos cenográficos. “O visual dos shows do pianista Vitor Araújo e da banda Rivotril foram pensados por mim”. Outra aposta dele é conseguir transformar a ilha do Recife Antigo em localização de luxo. “Essa parte da cidade deveria ser nobre por natureza. Em qualquer lugar do mundo seria assim. Deveríamos tratar nossa ilha como Manhattan ou Mônaco”, defende.
Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Press